Por que Florestas de Suculentas?
Afinal, de onde saiu a idéia para criar Florestas de Suculentas?
Bom, desde que plantei feijão no algodão no jardim de infância, aprendi que plantar era “legal”. Isso, somado a uma mania por dinossauros e seus ecossistemas, e por uma infância colhendo frutas no pé (não morava em sítio, mas a 1º casa de meus pais tinha um jardim-quintal bem grande), observando formigas guerrearem e assistindo documentários sobre natureza me condicionaram um gosto bastante forte por biologia em geral, especialmente por ecologia. Ecologia, cabe ressaltar, é o estudo das interações entre os seres e o meio, e não um sinônimo de “ambientalismo”.
Uma das plantas que eu via quando criança era a curiosíssima Graptopetalum paraguayense, que minha mãe mantinha em um vasinho desde que eu posso me lembrar. Lembro de algumas vezes ter duvidado se aquilo realmente era uma planta, e de ter ficado parado olhando para ela, apreciando sua excentricidade, tentando ‘entendê-la’.
Mais tarde, quando a família se mudou para um local mais elevado da cidade, por temor ao risco de enchentes, plantamos as Graptopetalum em uma floreira, onde se multiplicaram, e até floresceram. Dali perebi sua capacidade de regenerar uma planta toda a partir de uma folhinha, que foi o que bastou para eu a ir espalhando por onde quer que pudesse. Depois, ao longo dos anos, fui conseguindo outras suculentas, e começando uma coleçãozinha, mesmo sem nunca ter ouvido falar em “suculenta”.
Enquanto ia descobrindo outras espécies de suculentas, tanto cultivadas quanto expontâneas, fui aprendendo mais sobre a fenologia (estudo dos fenômenos periódicos dos seres vivos) de cada uma. As expontâneas floresciam e davam sementes, razão pela qual conseguiam continuar existindo no ambiente sem serem cultivadas. Mas nem todas faziam isso: algumas conseguiam sobreviver mesmo só com reprodução assexuada, ou seja, sem dar sementes. Dentre as suculentas expontãneas que encontrei figuram algumas portulacáceas (sobretudo onze-horas) e duas espécies de Kalanchoe. Mais tarde eu viria a descobrir uma infinidade de suculentas nativas em seu ambiente natural, mas nessa época eu ainda era criança, e não podia andar sozinho, quanto mais no meio do mato…
Apesar da maior parte do espaço de terra que havia na nova casa ter sido cimentado por meus pais, ainda restaram alguns canteiros, onde eu teimava em semear feijões em meio ao mato. Apenas por achar interessante observar a sua sobrevivência e crescimento, interagindo com o resto dos seres vivos dos canteiros. Depois passei também a plantar alfaces e couves, embora ainda não entendesse nada de ciência dos solos e nutrição vegetal.
Um certo dia, aproveitando um vaso velho e feio que lá havia, plantei-o com suculentas diversas, todas as epécies que tinha. Não lembro ao certo todas as espécies que usei, mas certamente tinha Graptopetalum paraguayense, Kalanchoe tubiflora, Kalanchoe blossfeldiana, Kalanchoe pinnata, Portulaca oleracea, Sedum dendroideum e uma muda jovem de Crassula argentea. Não lembro ao certo, mas é provável que também tivesse Huernia keniensis, Talinum paniculatum e uma espécie de Graptoveria bastante comum, mas que não sei indentificar.
Fiquei muito curioso para saber qual seria o resultado depois que elas crescessem, mas já sabia que seria bonito. Mas, além disso, algo me supreendeu: Olhando para o vaso, bem de perto como eu gostava de fazer, ele dava a impressão de mostrar uma floresta em miniatura, como aquelas que eu via nos documentários. O aspecto ‘arbóreo’ do Sedum dendroideum e dos kalanchoes me remetia à imagem de um arvoredo que compete por luz, fazendo crescer seus galhos segundo a sua natureza e as adversidades do ambiente (competição com outras suculentas), e com suas estratégias de sobrevivência originais. No inverno floresceram o Kalanchoe blossfeldiana e o Graptopetalum paraguayense, no verão a Portulaca oleracea. E o Kalanchoe tubiflora dava um jeito de se reprouzir lançando suas gemas adventícias. Eu podia passar um tempo longo olhando para aquilo e imaginando uma floresta. Mais ainda: podia até imaginar a voz de um narrador de documentários descrevendo cada espécie de ‘árvore’ daquela floresta, suas estratégias de sobrevivência. Não tinha, contudo, ainda nenhuma espécie animal que eu pudesse notar, exceto algum caracol ou baratinha de horta ocasionais.
Com o tempo, por razões que nem me lembro mais, tive de desmanchar minha floresta particular. Contudo, ela deixou inóculos, propágulos. Não apenas as plantas em si, que obviamente replantei, mas também inóculos de idéias, em minha cabeça. E se eu fizesse florestas maiores, com maior diversidade? O resultado certamente seria bonito, afinal, a única planta suculenta feia é aquela que ainda não se viu. Isso foi a desculpa para eu poder utilizar um enorme vaso de cerâmica onde outrora se plantava cebolinhas (aliás, hoje eu considero também a cebolinha uma suculenta, mas falemos nisso em outra ocasião), para plantar uma floresta de suculentas bem grande. Esperei, contudo, mais de uma ano: Minha “coleção” de espécies era ainda muito pequena, e eu sabia que havia outras espécies que eu poderia conseguir, fosse com amigos que cultivavam jardins, fosse em lojinhas, ou mesmo nas praias.
Tinha ainda outras idéias em mente: Se eu conseguisse manter uma diversidade maior de plantas, poderia atrair animais pequenos para viver na ‘floresta’. Eu partia da premissa de que vegetação com boa diversidade é atrativa para animais, ainda que formada por plantas exóticas. Afinal, uma floreira de Graptopetalum só seria um bom habtit para um animal que dependesse exclusivamente desta espécie, mas um vaso grande com mais de 20 tipos de suculentas, poderia ser interessante para alguns animaizinhos. Já antevia até algumas espécies que estariam presentes: O vaso poderia ser montado já com minhocas dentro, as flores das minhas Portulaca eram bastante atrativas a vários tipos de insetos, as da Huernia à moscas, caracóis e tatuzinhos poderiam ser ‘inoculados’ lá dentro. Enfim, este ‘projeto’ começou a ganhar vida em minha cabeça. E, como vida que é, foi crescendo e se diversificando.
Fui montando várias florestas, tantas quanto meus pais aceitaram pelo pátio. O aspecto surrealmente lindo delas agradava como ornamento às pessoas, e a sua convivência e outras interações ecológicas, a mim. Mais do que um vaso plantado com espécies expontâneas vulgares, que sem dúvida seria muito mais atrativo, as florestas de suculentas mostravam uma beleza única, surreal, quase transcendente, no sentido de que é muito mais bonito do que ter belas suculentas em vasinhos individuais. Eu tendo a crer que qualquer vegetação com alguma espécie de planta mais ‘bizzara’, nos é especialmente atrativa. Que se esperar, então, de uma floresta de suculentas, habitada apenas por plantas diferentes de quaisquer outras vistas comumente?
Enfim, para não me delongar ainda mais, conto apenas que… deu certo! Eu consegui montar Florestas de Suculentas com uma variedade grande de espécies (NESTA IMAGEM, se vê uma foto da minha FDS favorita, sendo que, contando com o musgo, uma Graptoveria morta e uma flor caída de Epidendrum radicans, há 21 espécies de plantas – foras as que nã saíram na foto), que tinha uma fauna bastante interesante e que se comportava com uma floresta mesmo. Sobre a fauna, assunto que abordarei com detalhes mais tarde, notei tanto animais que apenas visitavam as FDS, quanto outros que residiam nela de fato, inclusive algumas espécies que eram capazes de completar todo o ciclo vital dentro da FDS, nacendo crescendo e reproduzindo! Pequenos animais detritívoros e até herbívoros as adotaram como lar, e, claro, foram seguidos por alguns de seus predadores. Sobre outros aspectos em comum com florestas naturais, destaco principalmente a sucessão ecológica, descobrindo suculentas que se comportavam como pioneiras (espécies que apreciam ambientes degradados e abertos, sucumbindo depois que plantas maiores colonizam a área), muitas secundárias ou indiferentes (espécies que ou sucedem às pioneiras, ou podem viver em diferentes estágios de sucessão), e espécies climáxicas dominates (aquelas que acabam dominando a área, tendendo a expulsar as outras) e até ‘climáxicas obrigatórias’ (chamo assim às suculentas mais sensíveis, que precisam estar no interior da FDS, onde é sombreado e mais úmido, como os Nematanthus (columéia, peixinho, KissMe Plant) ou a Ceropegia woodii (corações cruzados)). Ainda mais um aspecto interessante é a formação de um sub bosque, ou seja, uma vegetação que vive embaixo do dossel das espécies maiores. Nas áreas com plantas climáxicas, o sub bosque é constituído tanto pelas climáxicas obrigatórias quanto por mudinhas novas de climáixas dominantes e por outras suculentas que ainda estão em processo de retração pela competição com as climáxicas. Já nas outras áreas, além de mudinhas, existe também musgo (plantas briófitas, não confundir com “limo”, aquelas algas verdes dos muros) e uma espécie preta de alga de solo. Nalguns casos, até orquídeas e samanbaias germinaram debaixo das suculentas.
Bom, por fim, parabenizo aos que tiveram paciência de ter este extenso post até o final. Embora algo autobiográfico quanto ao meu gosto por plantas, acho que ele ficou mais interessante mesmo aos aficionados por biologia do que para os amantes das plantas. Cada tema específico de biologia e as espécies citadas, irei tratar em posts específicos e objetivos ao longo do tempo, aqui no FDS. Em se tratando da Internet, acho que consigo encontrar quem ache estes temas tão interssantes quanto eu… Quem sabe não trago mais alguém para o hobby? rs
Galeria de imagens:
Links internos relacionados:
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Galeria de imagens relevantes de outros sites:
Links externos/referências:
Sucessão ecológica, na wikipédia
Fenologia (doc), documento da página da UFRGS
Plantas suculentas, blog de Marcus Corradini. Um de meus favoritos, sempre dou uma conferida para comparar as classificações de minhas plantas às que ele faz.
Graptoveria híbrida que citei, no blog de Marcus Corradini
Cultivo de cactos e suculentas, no blog PlantaSonya
Sedum acre, no Paisagismo Digital (exemplo de espécie pioneira)
Columéia-peixinho – Nematanthus wettsteinii, no blog PlantaSonya (exemplo de espécie climáxica obrigatória)
Ceropegia woodii Schltr., no blog O Jardim da Dama do Lago (exemplo de espécie climáxica obrigatória)
Idem acima, no blog Daqui do meu Quintal
Um trabalho acadêmico sobre algas de solo (pdf), ainda que não a espécie que noto nas FDS. Trata também de outros organismos.
Notícia sobre contaminantes de solo, que matam algas de solo
Manejo Ecológico do Solo, Livro de Ana Primavesi, pela editora Nobe. O material mais rico que já li sobre algas de solo, e ciências do solo em geral
Cactos e suculentas para todos, comunidade do Orkut, onde costumo buscar e compartilhar informações sobre suculentas
Julho 3rd, 2009Topic: Sem categoria Tags: None































































Julho 5th, 2009 at 18:18
[...] O Banquinho – Julgamento dos alunos de escolas particulares Eu e meu ego grande – Atitude contra AIDS Blog do Dênis Russo (link do Ravick) – Hortas caseiras para combater a crise Floresta de Suculentas – Por que Floresta de Suculentas? [...]
Outubro 26th, 2009 at 7:18
bom comeco